Coquetéis

Mocktail: beba sem moderação

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A maioria das minhas tias já morreu. Sei que isso não é jeito de se começar uma coluna sobre bebidas, e vou logo direto ao assunto, pois ainda corro o risco de deixar uma enciumadinha se um dia, por milagre, um computador cair aberto nesta página no colo dela. Entre todas as tias de sangue – minha mãe não admitia que adotássemos parentes e bichos “já basta os que temos” –, a única que dá uma saudade de doer os ossos é a tia Antonieta (Teta). Memória implacável, leitora compulsiva, maníaca por rádio de pilhas, e mais rápida do que qualquer máquina elétrica para fazer quilos de massa e contar histórias na mesma proporção.

Era uma delícia ver sua cara larga de calabresa apaixonada por Mussolini, contando com orgulho fascista que, entre uma anarquia e outra, os brasileiros não só escaparam do controle de preço da Sunab, como ainda subverteram a universal maneira clássica de servir aquele “mísero” refrigerante americano enfiando uma rodela de limão “brasiliano” com gelo no copo.

A Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab) foi um órgão do governo federal do Brasil, criado em 1962 pelo presidente João Goulart com status de autarquia federal, com poderes para intervir no mercado, fixando preços e controlando estoques. Era o terror dos comerciantes, principalmente donos de restaurantes que serviam em mesas com toalhas de linho engomadas, copos de vidro, cristal ou meio-cristal, talheres de prata, pratos de porcelana e que tais. Eles tinham seus preços tabelados e equiparados aos bares e botequins sem ser levado em consideração nada além do que era servido. Assim, uma garrafa de água Caxambu de 500ml servida no bar Bafo da Onça ou no Hotel Monte Carlo era vendida pelos mesmos 13 dinheiros da época, por exemplo.

Para escapar e/ou equilibrar a conta, os comerciantes foram criando subterfúgios. Foi nessa época que nasceu o couvert – no qual, a título de servirem uma cestinha com pão e manteiga, os donos dos estabelecimentos embutiam o preço da lavagem das toalhas e outras miudezas possíveis. Ao longo de sua existência, a cestinha já mudou de formato, razão de ser, conteúdo e muito mais. Só uma coisa ainda não mudou no tal do couvert: o tanto de coisa que está embutida naquele preço, que um dia serve para pagar uma coisa, outro para pagar outra, e em muitos para pagar nada mesmo, só aumentar a conta.

Uma coisa que nunca mudou, e foi a maior vingança fascista da anarquista Teta, é o costume do brasileiro de enfiar a rodela de limão na Coca-Cola. Para mudar o nome da bebida naqueles dias de Sunab, os donos de restaurante incluíram na lista os tais “soft drinks”, cuja sofisticada receita era encher o copo até o topo de gelo, tascar uma rodela de limão (para o sabor cola) ou de laranja (para o sabor guaraná). Aí, os bares e barracas vendiam os refrigerantes por, digamos, R$ 2,50. E os restaurantes, hotéis e pousadas vendiam os softs drinks por R$ 6,50.

Com outras hipocrisias para contar, os americanos não usam a expressão “soft drinks” regularmente para pedir bebidas sem álcool. Por lá, bebidas que contém menos de 0,5% de álcool são conhecidas como virgin drinks.

E, desde que a “Big Apple” resolveu assumir o ar de metrópole cínica, um clássico dos tempos de Shirley Temple ressuscitou: os mocktails – no sentido de falso, fingido, de imitação e dissimulado. Todos os sinônimos, é claro, fazem referência ao drinque que deve ser feito com todo o requinte e cuidado que se tem ao preparar coquetéis com álcool. E por isso também estão ganhando muita popularidade entre os bartenders de Nova York.

Seja por motivos de saúde ou apenas por uma mudança de hábito, os coquetéis sem álcool não deixam de ser opções refrescantes e charmosas. Basicamente, os mocktails devem ser feitos com uma base de água que será saborizada pouco a pouco.

Embora seja fácil se encontrar sucos decentes em caixinhas, é crime inafiançável usá-los no preparo de um mocktail. O segredo está em usar o máximo possível de ingredientes frescos.

Comece preparando uma receita bem simples, como a “Limonada da Aninha”. Faça um xarope, colocando em uma panela 50ml de açúcar granulado e 50ml de água; misture bem e leve ao fogo. Quando atingir o ponto de fervura, deixe que o açúcar se dissolva, sempre em fogo médio. Retire a panela do fogo, deixe esfriar. Junte a este xarope já frio o suco de um limão siciliano. Em uma jarra transparente, faça uma limonada usando o suco de três limões Taiti médios e 600ml de água gaseificada. Adoce com o xarope e acrescente 25ml de groselha, só para colorir. Como é notável, a limonada serve de 3 a 4 copos.

Saindo da escala “industrial”, existe um mundo gigantesco de variações que se pode preparar com frutas frescas, sempre adoçadas com o xarope de açúcar, que, por sinal, aguenta até uma semana se guardado em geladeira.

O “Bergamo Mocktail” é um destes de dose única em que você pode explorar o seu talento de bartender.

Ingredientes: 4 a 5 morangos maduros, suco de uma tangerina, uma colher de sobremesa rasa de xarope simples, guaraná regular e gelo.

Preparação: Em um copo tipo long drinque, amasse os morangos com o xarope de açúcar. Em seguida, junte o suco de tangerina e o gelo, mexa até homogeneizar todos os ingredientes. Complete com o guaraná. Sirva com canudos e decore com um morango ou um gomo de tangerina

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender consultora no Torna Pub e no Supermercado SuperPrix, e é titular da coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada semanalmente em seu site.