Cachaças

Não faz isso, Carolina!

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Poderia ser mais um disse me disse envolvendo a caipirinha. Mais um clássico caso de falta de entendimento entre os rigores da lei e os interesses privados, como aconteceu em 2009, quando o Ministério da Agricultura divulgou, por engano, uma instrução normativa no “Diário Oficial da União”. A tal instrução tinha, e tem, o objetivo de adotar padrões – essenciais para o controle e aferimento da qualidade – para a caipirinha industrializada. Esta definição de padrões para a caipirinha industrializada é fundamental, pois visa a garantir a qualidade do drinque e o reconhecimento internacional quanto à sua condição de bebida típica brasileira.

Imediatamente, começaram a pipocar mensagens em meu e-mail. Todas traziam comentários que mais pareciam ser dos cavaleiros do apocalipse.  Uma frase se repetiu em vários deles: “Só faltava essa: agora o governo quer ‘receitar’  como se faz  ‘socialmente’ uma caipirinha”. O consumidor está como deve estar: atento. Mas, neste caso, julgou como se o governo quisesse padronizar a receita da caipirinha consumida em bares, restaurante ou até mesmo em casa. Em nenhum momento isso foi cogitado na instrução normativa. Essas definições de padrões referem-se apenas à caipirinha pronta, industrializada, que requer regulamentação, como ocorre com outras bebidas e alimentos. Como já disse, o objetivo da instrução normativa é adotar padrões para garantir a qualidade do produto.

A fofocalhada em torno de normatização da caipirinha rendeu. E isto é bom, pois demonstra o quanto estamos valorizando nossa cultura. Não adianta somente eleger e elogiar os produtos de fora: precisamos proteger e cuidar principalmente dos nossos.

E mais uma vez a voz do povo se levanta. Porém, o acontecimento da semana passada está longe de ser um mal entendido. Foi no canal de TV GNT, em “Receitas da Carolina”. A bela e talentosa atriz Carolina Ferraz não conseguiu entrar no personagem dessa vez, e nos deixou sem entender o que pretendia esse tipo doidinho de dublê de cozinheira interpretado por ela, quando, a pretexto de nos mostrar como fazer uma caipirinha, castigou três tipos de limão em um copo e, pasmem, tascou vodca neles. E ainda disse que a melhor caipirinha é a brasileira… Existe outra? (sic, sic)

http://gnt.globo.com/receitas/receitas/caipirinha-de-tres-limoes-receita-da-carolina-ferraz.htm

Como diria o Didi, personagem de Renato Aragão: “Ô, Psiti! Caiu uma pedra de gelo aqui” 🙂 🙂 🙂

Produção!!!! Avisem para a queridona Carolina que, por decreto de lei, caipirinha é com cachaça. E cachaça só pode ser feita no Brasil. Segundo o decreto nº 4.851, de 2 de outubro de 2003, “caipirinha é a bebida típica brasileira, com graduação alcoólica de quinze a trinta e seis por cento em volume, a vinte graus Celcius, obtida exclusivamente com cachaça, acrescida de limão e açúcar”.

De forma errônea, tem-se propagado, mesmo em bares e restaurantes respeitados, a existência de “caipirinhas” de vários tipos de frutas, como, por exemplo, morango, kiwi e uva. Na realidade, pela legislação, esses drinques ou coquetéis não podem ser chamados de caipirinha, que denomina apenas a bebida feita de cachaça, limão, açúcar e gelo. Nos casos em que se utilizam outras frutas em vez do limão, os coquetéis de cachaça são chamados de “batidas”. Da mesma forma, coquetéis feitos com limão, açúcar, gelo e outros destilados, como a vodca, ou fermentados, como o saquê, são às vezes chamados, equivocadamente, de “caipirinha de vodca” e “caipirinha de saquê”, respectivamente.

Para quem está querendo mergulhar nos saberes da bebida nacional, recomendo o site Mapa da Cachaça.

Toques opcionais:

Alguns gostam de tirar a casca do limão, outros gostam de cortar em fatias em vez de cubinhos. Qual é a diferença? O óleo que está na casca da fruta.

  • Usando o limão em cubos, a presença do óleo será mais marcante, e o final da bebida deixará a boca untuosa.
  • Em fatias, a presença desse óleo da pele do limão não ficará tão marcante, pois, apesar de continuar existindo, é difícil espremer as bordas de uma fatia. E o óleo só é liberado quando amassado.

Bater ou não na coqueteleira depois de espremer é uma questão de aparência e preferência.

Chamar de caipirosca, caipifruta, caipisake ou caipi qualquer coisa não deixa de ser uma variação sobre o mesmo tema. E não há problema algum nisso. O engano está em dar o nome de caipirinha a um drinque feito com outros ingredientes.

Um bloody mary, por exemplo, todo mundo sabe que pode ser feito de 1001 maneiras. Porém, todo mundo sabe também que a receita clássica e original é com vodca.

O ideal seria que nós, brasileiros, tivéssemos na ponta da língua a receita da caipirinha e defendêssemos sua autenticidade com o mesmo afã que outros defendem um dry martini, um manhattan, um old fashion, um daiquiri, uma piña colada… e por aí vai.

Customizar uma bandeira é direito. E defende-la é dever!

Um beijão azedinho pra todo mundo e até domingo que vem!

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender consultora no Torna Pub e no Supermercado SuperPrix, e é titular da coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada semanalmente em seu site.